quarta-feira, 24 de março de 2021

O SER SÓ


Quando me vejo solitário, sem tempo, sem pressa, desanimado, demasiado, sinto constante o abrir do horizonte. Lá longe, te vejo solta, leve, plena, descabelada, absoluta. No meio da escuridão vejo seu brilho esvair-se, você se foi, mas nunca volta. Os dias são excelentes companheiros, pra mim, pra você, pro monte, pra terra, pro aterro, sem água, sem sal, sem lúgubre esplendor. Sem foco, sem prazer, sem te ter, sem te vê.

As vezes paira sobre mim uma tristeza errante, subalterna, omissa, promíscua, mas mesmo assim vou    adiante, constante é meu passaredo, meu pesadelo, meu pesar. Flores não te trago, já não as tenho com    seu cheiro inebriante, mas te trago a mim, como coice de cavalo que não quer perder o que se tem, apenas quer sintonizar na rádio do prazer.

Pobre de mim, jogado as traças, nas ladeiras íngrimes, em que os bebuns sobem atravessados, sem ter como segurar seus passos e de pés descalços, sem se importar com quem os veem, dando-lhes motivos torpes para zoarem de sua atual situação.

Vejo-me só, não tenho mais nada a perder, meu caminho é longo, minhas estradas são de pedras. Jogo-as no rios transpassados e sem cor. O dia já se foi e, mais uma vez deito só, no delírio de ter uma última vez, não quero acordar, quero ficar mais um pouco a espreitar-te do subsolo de minha morada. Não vejo mais nada, a luz me incomoda, me escondo, mas, não para sempre, só até o dia que puderes está contigo, ou simplesmente esperar-te vim me visitar em meus conturbados sonhos.

terça-feira, 23 de março de 2021

O HOMEM E A VIDA


O sol raiou e lá estava ele se preparando pra sair. Parece que nem tinha dormido, apenas tentou cochilar no sofá e quando o fazia vinham lembranças em sua mente, lembranças que não sabia explicar. Não tinha família, não tinha amigos, não tinha se quer um relacionamento, era sozinho, nunca o viram com ninguém por ser sempre discreto.
Caminhou algumas quadras até chegar ao seu café favorito, sentou a mesma mesa como era de costume, pois sempre saía no mesmo horário para impedir que alguém ocupasse o seu lugar favorito. A garçonete aproximou-se e disse: 
- O de sempre, Sr.?
Ele apenas acenou com a cabeça. Depois de alguns minutos a moça levou-lhe o que solicitara. Um café preto meio amargo e rosquinhas crocantes amanteigada. A mulher da mesa ao lado acompanhava toda a cena. A garçonete tentou puxar assunto:
- O Sr. vem sempre aqui e não diz nada, senta nesse mesmo lugar, toma o seu café, fica horas olhando pra rua, faz o pagamento do pedido e vai embora, por quê?
Ele a olhou firme e disse:
Não gosto de falar de mim, e por favor, não me dirija mais a palavra, se não deixo de frequentar esse estabelecimento.

O dono do local ao perceber o clima perguntou:
- O que está acontecendo por aqui?
O rapaz misterioso o fitou de cima a baixo, pegou a carteira, abriu-a e retirou o valor do lanche. colocou em cima da mesa. Levantou-se e saiu.
A moça raivosa saiu em direção ao balcão e o homem suado por ter estado na cozinha por muito tempo a pegou pelo braço e exigiu explicações.
- Se eu perder esse cliente eu te mando embora, está ouvindo? Sabe que devemos prezar pela discrição e privacidade de todos por aqui. Sejam eles quem forem. Entendido? Falou o homem.
- Sim Sr. entendi, só queria puxar conversa com ele. Respondeu a moça.
- Sem mais delongas e volte ao trabalho.

O homem discreto observava toda a situação ao longe, depois do ocorrido, virou a esquina e seguiu andando sem que ninguém o notasse. Pegou o telefone, discou um número. A voz do outro lado atendeu.
- Oi, o que você quer? 
- Preciso te ver, falou o homem misterioso.
- Onde? Respondeu a voz.
- No mesmo lugar, na estação de trem.
E, deligou.

Horas depois, lá estava ele, sentando em uma cadeira na estação, esperando a pessoa com quem falou ao telefone chegar.
- Finalmente, estou aqui há uns 30 min mais ou menos. Falou o rapaz irritado.
A pessoa a quem estava esperando era um homem alto, robusto e tinha cabelos brancos lisos. Vestia um terno cinza em um tom sombrio e com sua voz eloquente disse:
- Mas, você não me disse um horário específico, então te dei meia hora pra pensar no que realmente te fez me tirar do conforto de minha casa pra vim te vê.
Ao que ele respondeu:
- As vezes precisamos apenas nos sentir seguro, ando tão só que não reparo na beleza das flores. Observo a todos a minha volta, só não consigo me observar por dentro. Penso que a solidão não tem me ajudado muito e que tenho assuntos inacabados a resolver. Sinto que as pessoas me olham querendo saber mais de mim, mas não me acho suficiente pra ninguém. Me diz o que há de errado ?
O homem grisalho falou:
- Não há nada de errado com você, só precisa de um tempo pra esquecer as perdas que teve e começar a pensar no que falta você ganhar. As vezes achamos que não somos suficientes para alguém, mas, na verdade, temos que ser suficientes para nós mesmos. Não é que você vai esquecer o mundo lá fora, você apenas vai viver um dia de cada vez e a cada dia vai ter um propósito diferente, isso vai te dá mais ânimo para viver seus dias melhores e sem culpas, meu filho.

Moral da historia:

Número um - Quanto mais discreto você for, mais as pessoas irão querer saber a seu respeito. O importante é dá a elas o que querem e fazê-las acreditar em suas histórias. Assim, você nunca se sentirá sozinho e também não irá ter ninguém xeretando a sua vida.
Número dois - Na maioria das vezes você sempre terá coisas a esconder. Certifique-se de encarar as consequências de seus atos.

Isso serve para tudo aquilo que fizer. É sempre bom ter bons amigos, ter alguém com que contar, porém é fundamental que nos deixemos livres de qualquer culpa que tenhamos com relação ao outro, só não precisamos nos culpar pelas nossas falhas sempre.