quarta-feira, 24 de março de 2021

O SER SÓ


Quando me vejo solitário, sem tempo, sem pressa, desanimado, demasiado, sinto constante o abrir do horizonte. Lá longe, te vejo solta, leve, plena, descabelada, absoluta. No meio da escuridão vejo seu brilho esvair-se, você se foi, mas nunca volta. Os dias são excelentes companheiros, pra mim, pra você, pro monte, pra terra, pro aterro, sem água, sem sal, sem lúgubre esplendor. Sem foco, sem prazer, sem te ter, sem te vê.

As vezes paira sobre mim uma tristeza errante, subalterna, omissa, promíscua, mas mesmo assim vou    adiante, constante é meu passaredo, meu pesadelo, meu pesar. Flores não te trago, já não as tenho com    seu cheiro inebriante, mas te trago a mim, como coice de cavalo que não quer perder o que se tem, apenas quer sintonizar na rádio do prazer.

Pobre de mim, jogado as traças, nas ladeiras íngrimes, em que os bebuns sobem atravessados, sem ter como segurar seus passos e de pés descalços, sem se importar com quem os veem, dando-lhes motivos torpes para zoarem de sua atual situação.

Vejo-me só, não tenho mais nada a perder, meu caminho é longo, minhas estradas são de pedras. Jogo-as no rios transpassados e sem cor. O dia já se foi e, mais uma vez deito só, no delírio de ter uma última vez, não quero acordar, quero ficar mais um pouco a espreitar-te do subsolo de minha morada. Não vejo mais nada, a luz me incomoda, me escondo, mas, não para sempre, só até o dia que puderes está contigo, ou simplesmente esperar-te vim me visitar em meus conturbados sonhos.

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